Prazer, meu nome é diferente

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Obs. Esse é um assunto que me acompanha a vida inteira e sinto a necessidade de falar sobre ele. A vida inteira é tempo pra caramba e por isso eu tenho muito o que falar. Pra não escrever a bíblia aqui, resolvi dividir o assunto em tópicos e vou postá-los numa série que intitulei: quebremos o padrão. Essa é a primeira parte da série.

Parte 1 da série “quebremos o padrão

Então eu nasci Gouramani. E Gouramani eu sou. Você ouve esse nome estranho e pensa: “Coitada, os pais sacanearam mesmo! Sem dó nem piedade!” Sim ou não? Talvez não. Mas eu já ouvi esse tipo de comentário vindo de várias pessoas, inclusive de amigos que se importam comigo e têm uma visão mais aberta sobre o mundo. Confesso que, mesmo após 30 anos sendo Gouramani, continuo passando por um breve estado de choque quando isso acontece. Uma parte inocente de mim acha que no ano de 2016, com tantas campanhas anti-homofobia, anti-racismo, feministas, etc, as pessoas já estariam abraçando melhor tudo o que é diferente, tudo o que é oprimido, tudo o que não é padrão. Mas não.

Ainda tem muito campo pra arar nesse mundo.

Mas foi passando por isso de novo e de novo, e sempre tendo que explicar meu nome e dar significado a ele —o que eu faço com amor—, que tive o desejo de escrever sobre esse tema. Como poderiam as pessoas entender sobre o assunto, se ele nunca foi explicado? Pelo menos, não por mim.

Meu nome —esse nome esquisito que você provavelmente nunca tinha ouvido antes de me conhecer— é um nome sânscrito que significa literalmente pedra preciosa(mani) dourada(goura), ou “aquela que é como uma joia dourada”. Bonito, né? Geralmente eu recebo uma reação muito positiva quando explico o significado do meu nome. Ele vai de super estranho e feio pra muito bonito e exótico .

O porquê de uma brasileira tão miscigenada, que nem sabe as origens exatas da sua ancestralidade, ter arrumado um nome sânscrito? Papai e mamãe são hippies hare-krishna. Já ouviu falar? Não quero me estender muito nesse assunto, já que não é essa a questão que quero discutir aqui, só quero fazer um adendo pra explicar que cresci em meio a uma realidade paralela. Conheço toda uma comunidade de pessoas —algumas das quais são minhas melhores amigas— de nomes igualmente “estranhos”. Alguns mais, outros menos. Algumas dessas pessoas amam e abraçam seus nomes, outras quiseram mudar —e até mudaram— de nome porque a agressão social foi tão grande que não puderam resistir. Quiseram ser apenas “normais”. Chamo de agressão social porque é realmente mais um quadro de intolerância, preconceito e opressão. Temos um padrão que nos foi imposto há séculos. Seguimos não aceitando, ridicularizando e invisibilizando tudo que não é o padrão.

Eu nasci diferente e escolhi continuar assim. Meu nome é parte importantíssima da minha identidade.

Nesse post, eu só quero me apresentar e me explicar. Coisa do tipo: Prazer, desculpa eu ser estranha, mas é isso mesmo. Eu existo e mereço ter meu nome ouvido, falado, lido e escrito da maneira correta.

No próximo post vou falar sobre a minha experiência sendo uma pessoa de nome incomum no Brasil e explicar como essa mentalidade de oprimir o que não é padrão veio da colonização. A gente não precisa continuar reproduzindo isso.

8 Comentários

  1. Raphael Gomes disse:

    Jóia! Tanto o texto como o seu nome! <3

  2. Mairusa disse:

    Uau! Adorei!

  3. Vivian disse:

    Opa! Você é incrível mesmo mulher , bora gritar!!!! Vai lá Gooooo <3

  4. Carol disse:

    Amei! Ja sabia que tinha haver com hare hare. Cresci indo ao nova gocula: pavoes, flores e colorido <3 e muito hare hare.

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