A relação entre a colonização e o preconceito com nomes “não padrão”

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Obs. Para ler a parte 1, clique aqui.

Parte 2 da série “quebremos o padrão

A colonização impôs uma normatividade branca cristã no Brasil. As normatividades impostas no Brasil são inúmeras e vão da raça ao gênero e à sexualidade. É um fato muito triste ter qualquer tipo de normatividade imposta sobre nós. O interessante é perceber que a normatividade de raça é relacionada com a normatividade também imposta aos nomes que temos. Você já tinha feito essa associação? Mesmo sendo Gou.ra.ma.ni, levei bem umas décadas pra perceber isso. 

Pois bem… O que é ser normal no Brasil? Já reparou nos nomes das crianças?

No Brasil, o padrão é ter nomes cristãos de origem hebraica, uma herança óbvia da colonização catequizadora. Já reparou como é raro encontrar nomes de origem africana ou indígena? Há alguns poucos nomes indígenas popularizados graças a personagens famosos da literatura brasileira ou a atores de TV, mas mesmo assim os nomes de origem cristã dominam a população brasileira. A quantidade ínfima de nomes de origem africana é, no mínimo, triste. Uma prova de que o racismo atinge níveis que, muitas vezes, a gente deixa passar despercebidoUm artigo muito bom sobre o assunto é esse aqui da Geledés.

Foram negados aos nosso antepassados africanos e indígenas o uso de seus nomes e o acesso à sua história. E esse padrão continua se repetindo até hoje. Está acontecendo um movimento de resgate da negritude e das raízes indígenas do país. Esse movimento vem da população, mas não é estimulado pelas “autoridades”. Meu pai, quando foi registrar a mim e a meus irmãos no cartório, não estava participando desse movimento, só estava batizando seus filhos conforme sua crença. Ele teve que lidar com a resistência do escrivão na época e a mesma resistência acontece nos dias de hoje. As pessoas, no geral, insistem em associar os nomes que não estão dentro da norma com a sua própria realidade limitada. Os nomes precisam se encaixar apenas ao que é conhecido a elas. Se um nome de origem africana, oriental ou indígena soa como algo “feio” em português, então não pode. Por exemplo, cansei de ouvir piadas de que Goura soa como mau agouro. No artigo da Geledés, há relatos de outras associações feitas a outros nomes “não brasileiros”.

Minha gente, eu só queria fazer um pequeno apelo: Se o nome não é em português, podemos abrir nossas mentes e entender que outros idiomas são entidades separadas da cultura a que fazemos parte?

Há também a discussão sobre a “brasilidade” do nome na hora do registro. E como assim nomes indígenas e africanos não são brasileiros?! Tem algo mais brasileiro que a nossa descendência negra e índigena? Eu fico realmente muito confusa —pra não dizer, muito puta!— com esse tipo de coisa.

Além da intolerância já mencionada, —que ilustra claramente a ligação que esse tipo de opressão tem com o racismo— no Brasil também classificam os nomes de acordo com a classe social. Há nomes de rico e nomes de pobre. Pra não dizer, nomes bons e nomes ruins. E nomes inventados são terrivelmente mal vistos. Por quê? O que há de feio em usar a criatividade para criar um nome único? 

Outra curiosidade é que, ao mesmo tempo que esses nomes são motivos de rejeição e piada, nomes de difícil leitura e pronúncia, mas de origem italiana, alemã, russa, etc, são vistos como indicadores de status e motivo de orgulho. É bastante óbvio que a depreciação de apenas alguns tipos de nomes está intrinsecamente ligada ao racismo e ao preconceito de classe.

É necessário que haja resistência à normatividade e resgate das culturas que nos foram negadas.

Não digo resistência no sentido de negar e depreciar a cultura branca cristã, mas no sentido de parar de ver essa cultura como a norma, e abraçar também o que sempre foi tido como diferente. Celebrar a diversidade, em vez de invisibilizá-la.

Eu estou me referindo ao Brasil, mas eu sei que esse é um problema que afeta o mundo inteiro. Essa discussão, vou deixar pro próximo post.

Leitura complementar:

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