A intolerância com nomes africanos [e não-branco-cristãos] no mundo

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Amandla Stenberg é uma super jovem ativista americana cujo primeiro nome é um nome Xhosa e Zulu que significa poder.

Amandla Stenberg é uma jovem ativista americana cujo primeiro nome significa poder em Xhosa e Zulu.

Obs. Para ler a parte 1, clique aqui e a parte 2, aqui.

Parte 3 da série “quebremos o padrão

Eu já viajei por um tempo consideravelmente extenso e pude verificar que meu nome continuou sendo estranho não importava em que parte do mundo eu estivesse. Claro que cada país tem a sua norma e seus nomes favoritos. Mas o que observei é que a intolerância com o “diferente” é algo reproduzido independente de localização. Além disso, o fato de eu ser brasileira é outro dado que sempre me faz alienígena aos países que não são o Brasil. Então, ser brasileira + ter um nome que nem brasileiro é = receita pra passar por certa dificuldade em terras distantes.

Há muita gente desperta e que luta pelas minorias no mundo inteiro. Mas a xenofobia existe, o racismo existe, a misoginia existe. Vide quem se elegeu nas últimas eleições americanas.

Como já expliquei no post passado, esse preconceito se estende aos nomes. O que observei em países na América Latina foi uma reprodução do comportamento brasileiro. Ou seja, uma massificação de nomes cristãos, mesmo com uma presença e uma preservação das culturas indígenas que eu considero mais forte que no Brasil. Na Ásia, só visitei a Índia, e senti também as cicatrizes da colonização no ar. Apesar de as diferentes culturas hindu e muçulmana terem se mantido bem preservadas, notei uma invasão de nomes cristãos. Já no Reino Unido e em alguns países da Europa onde há grande presença de pessoas de todas as partes do mundo—e por isso, há de se pensar que a aceitação seria maior—, percebi que a intolerância é um pouco menor. Mas só um pouco. Porque, sim, aquela velha mentalidade xenofóbica ainda reina por lá. Muitas vezes, rola um preconceito velado, que eu tenho certeza que a pessoa nem se dá conta do seu preconceito, mas também rola o famoso “volta pro seu país” aqui e ali em alto e péssimo som.

Infelizmente, ainda não visitei nenhum país na África , e não sei se por sorte ou por azar, também não conheci a América do Norte, dos Estados Unidos pra cima. Eu acho interessante eu não ter conhecido justamente as duas regiões onde um movimento interessante começou no início desse ano. Quando eu fiquei sabendo desse movimento aconteceu uma retrospectiva no meu cérebro de toda a opressão que eu já tinha sofrido na vida por causa do meu nome.

Esse movimento que aconteceu no Twitter dizia que 2016 seria #TheYearWeMispronounceBack—ou o ano que vamos pronunciar errado de volta.

A hashtag começou a ser propagada na África do Sul e rapidamente alcançou afrodescendentes do mundo inteiro. Carregados no sarcasmo, milhares de pessoas negras postaram sobre situações que ocorrem em suas vidas, mas invertendo a situação para nomes de pessoas brancas. Uma espécie de chamada cômica que deveria funcionar pra que as pessoas brancas prestassem atenção a esse comportamento e mudassem. Você pode ler mais sobre essa hashtag viral aqui e aqui.

Na África do Sul e no mundo, pessoas brancas pronunciam errado e, muito frequentemente, simplesmente se recusam dizer nomes africanos. Nos Estados Unidos um trecho de uma entrevista que a atriz Uzo Aduba deu ficou famoso e trouxe essa discussão à tona também. Ela disse o seguinte:

“Eu cresci numa cidade bem pequena em Massachusetts, e não preciso nem dizer que não haviam muitas famílias nigerianas por lá. Muitas pessoas não conseguiam dizer Uzoamaka. Um dia voltei da escola e disse à minha mãe: ‘Mamãe, você pode me chamar de Zoe?’ Sem titubear, ela disse: ‘Se eles conseguem aprender a dizer Tchaikovsky, Michelangelo e Dostoyevsky, eles podem aprender a dizer Uzoamaka.’ E nós nunca discutimos de novo.”—Uzo Aduba

Durante a vida, tive que corrigir meu nome sistematicamente, e, em diversas ocasiões, desejei ser Maria. Eu acho que as pessoas que, mesmo sendo corrigidas, continuam errando, o fazem por falta de empatia. Já passei por vários episódios em que as pessoas se recusaram me chamar pelo meu nome. Disseram algo do tipo: ‘é muito difícil, posso te chamar de “insira o que a sua criatividade permitir aqui’?” Muita gente me pergunta se eu tenho um apelido mais fácil, e eu as ofereço duas opções: Goura ou Mani. Mesmo com essas formas curtas, ainda há rejeição, e muita gente decide simplesmente não me chamar de nada.

Eu tive essa recepção ao meu nome em TODOS os lugares que eu visitei no mundo. Se até na África do Sul, onde a maioria da população tem nomes com origem nas línguas africanas, e você pensaria que as pessoas brancas seriam mais familiarizadas a eles, mas mesmo assim, se recusam a aprendê-los—nós temos um caso de intolerância muito sério.

A minha conclusão é que o padrão europeu colonizador impera no mundo inteiro. E já passou da hora de nós mudarmos isso.

“Shout-out to these black South Africans for debuting this hashtag on black Twitter and getting it to go viral—and for shedding light on another realm of the black Diaspora.”—Diana Ozemebhoya Eromosele

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