Sobre o amor

Angela Davis, escritora e ativista do feminismo interseccional.
O que podemos fazer [educar, mudar, quebrar o padrão]
9 de dezembro de 2016

“Já casou, minha filha?” Era o que minha avó sempre me perguntava quando eu ia visitá-la. Ao que eu respondia com certa impaciência: “Não, vó. Não vou casar. Não nessa vida.” E ela respondia: “Faz bem, filha. Casamento dá muito trabalho.” A fixação—um tanto contraditória—que ela tinha com o casamento me irritava um pouco, mas com o tempo consegui entender que ela fez parte de uma geração que não tinha muita escolha. O destino de toda mulher era casar.

Foi depois da partida dela que meu pai teve acesso a correspondências que ela guardou a vida inteira. Lendo esses postais e cartas com muito interesse, fui descobrindo um lado da minha avó de que eu não tinha nenhum conhecimento. A Eny jovem, romântica, apaixonada. Minha avó pra mim sempre foi apenas minha avó. Mãe do meu pai. Ela não era uma avó muito saudosa que gostava de ficar relembrando e contando histórias do seu passado. Estava sempre bem no presente [que baita ensinamento, vó!], preocupada com as questões da família, com o sucesso profissional dos netos e, claro, com nossos casamentos.

Foi apenas no dia da sua passagem, lendo as cartas que meu avô mandava pra ela, que eu entendi o porquê da fixação dela. Minha avó viveu o amor romântico de uma forma que eu nem imaginava ser possível fora dos livros e dos filmes.

Lendo as correspondências senti um amor gigante por essas duas pessoas que fazem parte de mim mas que eu nunca pude conhecer por completo. E senti o desejo de escrever pra minha avó.

Vó, eu me casei sim. Eu me casei comigo mesma. E me caso com todas as pessoas que passam pela minha vida. As que foram, as que ficaram e as que estão por vir. Amantes, amigos e estranhos. Não me casei de papel passado e essas pessoas não me dão segurança, estabilidade, nem me prometem exclusividade. Mas eu me comprometi a amá-las. Não espero delas juras de amor. Mas dou a elas todo o amor que posso dar. Como sei que você deu a meu avô e meu avô deu a você. A sociedade mudou muito desde que você foi jovem. Hoje temos muito medo da entrega e do comprometimento. Mas eu me entrego e confio no amor. Me caso contigo, vovó. Te amo e sou grata. E sinto muito por ter perdido a oportunidade de ter passado mais tempo contigo e te conhecido melhor. Mas te prometo cumprir com meu dever de ser feliz nessa vida. Sem vergonha, sem culpa, sem medo. Ou pelo menos, tento! 🙂

Te amo e te honro, vó. Você segue em nós e nós seguimos com você.

Minha avó se foi no dia 18 de dezembro de 2016. Ela viveu uma vida completa. Não foi apenas minha avó e de meus irmãos e primos, mãe do meu pai e do meu tio, matriarca, provedora, acolhedora. Foi também mulher apaixonada e viveu uma história de amor. Foi professora, estudiosa, cristã, amiga, conselheira e uma mulher de generosidade extrema. E tantas coisas mais que eu nunca saberei.

Postais para Eny

Um dos postais que meu avô mandou pra ela na época em que saudade tinha trema:

“Sinto uma grande falta, uma enorme saüdade de você. Se a viagem não estivesse sendo feita em bom navio, com bom tempo e agradáveis companheiros, essa saüdade seria muito maior e mais dolorosa. Eny, escreve-me, telegrafe-me o máximo possível, para minorar a dor da minha saüdade. Imagino que será comovente minha chegada a casa. Chorarei. *Eny, deixei o beijo para enviar-te neste cantinho.*”

—Dinamerico

4 Comentários

  1. continua escrevendo, pfvr! <3 isso foi muito lindo e inspirador, obrigada!

  2. Vivian disse:

    Lindo demais Go !!! 🙂

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